Missão (im)Possível: Pesquisa para a Feira de Ciências da Escola - Alimentos Congelados
Esta semana, vivemos uma experiência inédita aqui em casa: Nyara recebeu uma tarefa especial que nunca havíamos realizado antes — uma pesquisa para a feira de ciências! Imaginem como fiquei ao ler a tarefa: descabelada, mas topei o desafio.
Nyara geralmente tem bastante resistência às tarefas escolares. Não sei se muitas pessoas autistas são assim, mas parece que ela entende que a tarefa da escola é para fazer na escola e não em casa. Bem, adivinhem o tema do grupo da Nyara para a feira de ciências... Alimentos congelados ! Justo ela, que tem uma seletividade alimentar desde pequena.
Para quem não conhece, a seletividade alimentar é um comportamento comum no espectro autista (e não somente no espectro), em que a pessoa apresenta forte preferência ou aversão a certos alimentos, influenciada muitas vezes pela textura, cor, cheiro ou aparência. Existem diferentes tipos: têm seletividade por cor, por textura, e há quem rejeite tudo o que foge do que considera “comida segura”. No caso da Nyara, ela prefere alimentos bem específicos e chega a ser mono-alimentar durante meses e sempre é resistente a experimentar algo novo.
Essa seletividade requer muita paciência e adaptação. É importante que as escolas, ao entenderem esse aspecto, evitem qualquer obrigação para as crianças com seletividade alimentar experimentem novos alimentos ou se adaptem ao cardápio padrão. Um ambiente escolar acolhedor e abrangente pode ser um grande suporte, principalmente ao incluir alternativas que respeitem essas preferências, promovendo uma relação mais tranquila e respeitosa com a alimentação.
Primeiro, fui pesquisar na internet sobre alimentos congelados e, depois, sobre como adaptar a explicação para uma pessoa autista não verbal. Consegui traçar uma estratégia de guerra: preciso fazer com que ela percebesse que eu estava ensinando algo importante para a escola e para a vida a partir de explicações simples e exploração visual e sensorial.
Como já comentei com vocês em outros relatos, a comunicação com a Nyara deve ser bem objetiva, direta, afirmativa e concreta. Então, comecei:
— Nyara, hora de estudar. Nyara, alimentos. Alimentos são comidas. Nyara, alimentos congelados. Nyara, congelado é muito frio. Muito frio pra comida durar mais.
Imaginem ela me ignorando plenamente enquanto enfileirava seus lápis na mesinha. Mas, de vez em quando, ela me olhava de lado — um olhar lateral, típico em algumas pessoas no espectro autista. Esse tipo de olhar, conhecido como "olhar periférico" ou "olhar lateral", acontece porque algumas pessoas no espectro sentem-se mais confortáveis observando pelo canto dos olhos do que diretamente. Isso pode ser uma maneira de visualizar o que está ao redor com menos estímulo direto ou de evitar o contato visual intenso, que pode ser desconfortável. Quando ela era criança eu pensava que ela não estava prestando atenção em mim, e foi libertador aprender sobre olhar lateral. Mesmo sem olhar diretamente ela percebe e compreende tudo ao seu redor.
Eu, firme na conversa pedagógica, insisti:
— Vamos à cozinha ver os alimentos congelados?
Ela não quis. Imagine só: ela ama ir à geladeira, ficar lá com a porta aberta, refletindo se pega alguma coisa ou não (e acaba pegando sempre a mesma coisa). E no momento em que eu precisei dela na frente da geladeira, ela não quis! Cometi um erro básico de comunicação, eu perguntei ao invés de afirmar, daí abri a brecha dela recusar.
Ok, dei um jeito. Fui buscar um geladinho e ofereci pra ela, já sabendo que ela não ia querer. Ela pegou o geladinho da minha mão e correu para jogar dentro da geladeira. Assim, consegui fazer com que ela fosse até a tão sonhada segunda estratégia pedagógica que eu tinha planejado na minha cabeça.
Segurei-a em frente à geladeira e falei:
— Espera, Nyara. Alimentos.
Abri o congelador e disse:
— Olha, Nyara, alimentos congelados.
Pedi para ela colocar a mão. Ela relutou, mas colocou o dedo indicador no pacote de carne moída congelada. Eu cheia de orgulho de ter conseguido, e num segundo ela já tinha jogado o pacote pro alto. Sorte que caiu na pia e o prejuízo foi zero!
Ela voltou para a sala, e eu me sentei ao lado dela rindo sozinha, pensando: sucesso! Agora é esperar um momento de calma dela para mostrar mais imagens de outros alimentos congelados.
Assim foi o primeiro trabalho de pesquisa da Nyny. Uma aventura cheia de emoção, mas com muito aprendizado e, obviamente, boas risadas no final.
Se você leu até aqui, deixa um coraçãozinho para mim na mensagem. Assim, saberei que esse tipo de conteúdo interessa e continuarei compartilhando nossos momentos.
Muita luz para todas as pessoas que acompanham nossa jornada! Ubuntu!